Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física — CREF nº 040024-G/SC

A evasão escolar representa um dos desafios mais preocupantes da educação brasileira, pois interrompe trajetórias de aprendizagem e pode comprometer oportunidades futuras de milhares de jovens.

Como professor de Educação Física, acredito que compreender esse problema exige olhar além dos números e investigar as dificuldades que levam crianças e adolescentes a se afastarem das instituições de ensino.

Questões econômicas, familiares, pedagógicas e sociais influenciam diretamente a permanência escolar.

Por isso, enfrentar a evasão exige políticas públicas articuladas, valorização dos professores e estratégias capazes de garantir não apenas a matrícula, mas também condições adequadas para aprender e concluir os estudos.

A evasão escolar no Brasil e os desafios da permanência estudantil

A ampliação do acesso à educação representa uma conquista importante para a sociedade brasileira. Entretanto, garantir uma vaga não significa necessariamente assegurar que o estudante consiga permanecer na instituição até concluir sua formação.

A evasão escolar precisa ser compreendida como um fenômeno complexo, relacionado a diferentes fatores que interferem na trajetória educacional.

Dificuldades econômicas, problemas familiares, defasagens de aprendizagem, necessidade de trabalhar e ausência de condições adequadas de atendimento podem contribuir para o afastamento dos estudantes.

Segundo informações divulgadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em julho de 2025, aproximadamente 993 mil crianças e adolescentes brasileiros, entre 4 e 17 anos, não frequentavam a escola, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2024.

Esse número representa a população fora da escola na faixa etária analisada, incluindo diferentes situações de exclusão educacional, e não apenas estudantes que abandonaram os estudos naquele ano.

Na minha visão, compreender essa distinção é importante para desenvolver políticas adequadas.

O abandono escolar costuma ser identificado quando o estudante deixa de frequentar a escola durante determinado ano letivo, enquanto a evasão está relacionada à interrupção de sua trajetória escolar, frequentemente observada pela ausência de retorno no período seguinte.

Independentemente da classificação utilizada, considero que o principal desafio está em identificar as causas do afastamento e construir condições para que o estudante retome ou mantenha seu vínculo com a educação.

Por que tantos jovens interrompem os estudos antes da conclusão?

A decisão de deixar a escola nem sempre representa uma escolha livre de dificuldades externas. Muitos adolescentes enfrentam responsabilidades e obstáculos que interferem diretamente na possibilidade de continuar estudando.

A necessidade de contribuir financeiramente com a família está entre os fatores relevantes. Em determinadas situações, jovens precisam ingressar precocemente no mercado de trabalho, enfrentando dificuldades para conciliar horários, deslocamentos e atividades escolares.

Dados da PNAD Contínua Educação 2024, analisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstram diferenças importantes entre os motivos relacionados à interrupção dos estudos.

Entre os homens de 15 a 29 anos que não haviam concluído o ensino médio e estavam fora da escola, a necessidade de trabalhar foi o principal motivo citado para não frequentar a instituição naquele momento, alcançando 61,2% em 2024. Entre as mulheres, gravidez e responsabilidades domésticas e de cuidados, consideradas conjuntamente, representaram 38,2% das razões apontadas.

O abandono escolar não pode ser explicado por uma única causa

Esses indicadores demonstram que a interrupção dos estudos está relacionada a realidades diferentes. Enquanto alguns jovens enfrentam dificuldades econômicas, outros convivem com responsabilidades familiares, problemas de aprendizagem ou ausência de apoio adequado.

Acredito que responsabilizar exclusivamente o estudante pela evasão escolar significa desconsiderar circunstâncias que podem ultrapassar sua capacidade individual de decisão.

O enfrentamento do problema exige compreender essas particularidades. Uma política voltada a jovens que precisam trabalhar pode apresentar necessidades diferentes de outra destinada a estudantes que enfrentam dificuldades de aprendizagem ou situações de vulnerabilidade familiar.

Identificar os sinais de abandono antes que o estudante deixe a escola

Uma das medidas que considero fundamentais para enfrentar a evasão escolar é o acompanhamento sistemático da frequência e da participação dos estudantes.

O afastamento da escola nem sempre acontece de maneira repentina. Faltas recorrentes, dificuldades de aprendizagem, mudanças no comportamento e redução da participação nas atividades podem representar situações que merecem atenção.

Entretanto, esses sinais não devem ser interpretados automaticamente como desinteresse. É necessário compreender o contexto antes de estabelecer qualquer julgamento sobre o estudante ou sua família.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabelece responsabilidades relacionadas ao acompanhamento da frequência escolar.

O artigo 12, com alterações introduzidas pela Lei nº 15.231/2025, determina que os estabelecimentos de ensino notifiquem o Conselho Tutelar sobre estudantes que apresentem faltas acima de 30% do percentual permitido em lei, além de situações específicas de violência envolvendo alunos.

O acompanhamento precisa resultar em acolhimento e orientação

Na minha avaliação, identificar faltas não deve servir apenas para cumprir procedimentos administrativos. O acompanhamento precisa contribuir para compreender dificuldades e organizar medidas capazes de favorecer a permanência escolar.

O contato com os responsáveis, a análise das necessidades pedagógicas e a articulação com serviços de proteção podem ser importantes, conforme cada situação.

Também considero necessário que os professores participem desse processo sem assumir individualmente responsabilidades que pertencem à gestão escolar e à rede de proteção social.

A prevenção da evasão exige organização institucional, disponibilidade de profissionais e mecanismos de acompanhamento que respeitem a privacidade e os direitos dos estudantes.

A Busca Ativa Escolar como política de enfrentamento à evasão

Uma das iniciativas brasileiras voltadas ao enfrentamento da exclusão educacional é a Busca Ativa Escolar, estratégia desenvolvida pelo UNICEF em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e outras instituições.

A proposta utiliza uma metodologia de atuação integrada e uma plataforma tecnológica para apoiar estados e municípios na identificação de crianças e adolescentes fora da escola ou em risco de abandono.

De acordo com a avaliação da Busca Ativa Escolar publicada pelo UNICEF em dezembro de 2025, a iniciativa havia contribuído para a rematrícula de aproximadamente 312 mil crianças e adolescentes desde sua criação, em 2017.

A avaliação também identificou contribuições relacionadas à articulação entre diferentes setores da administração pública e à identificação de grupos em maior situação de vulnerabilidade educacional.

Encontrar o estudante é apenas o primeiro passo

Acredito que o retorno à escola representa uma conquista importante, mas não pode ser considerado o encerramento do trabalho de acompanhamento.

Um estudante que retorna às aulas após um período prolongado de afastamento pode apresentar dificuldades para acompanhar os conteúdos ou reorganizar sua rotina.

Por isso, considero importante que as estratégias de busca ativa sejam acompanhadas de medidas pedagógicas e sociais que contribuam para a continuidade dos estudos.

A Busca Ativa Escolar demonstra a importância de articular educação, saúde, assistência social e outras áreas para compreender as razões da exclusão.

Na minha visão, políticas dessa natureza precisam ser acompanhadas de planejamento local e avaliação permanente, evitando que o retorno à escola seja seguido por um novo afastamento.

O Programa Pé-de-Meia e o apoio financeiro à permanência escolar

As dificuldades econômicas representam uma das barreiras que podem comprometer a continuidade dos estudos, especialmente no ensino médio.

Nesse contexto, o Governo Federal instituiu, por meio da Lei nº 14.818/2024, o Programa Pé-de-Meia, destinado a oferecer incentivos financeiros a estudantes elegíveis da rede pública.

Segundo as informações oficiais do programa disponibilizadas pelo Governo Federal, a iniciativa contempla incentivos relacionados à matrícula, à frequência, à conclusão das séries e à participação em exames educacionais, conforme os critérios estabelecidos.

O programa busca estimular a permanência e a conclusão escolar, considerando as dificuldades econômicas enfrentadas por parte dos estudantes.

O incentivo financeiro precisa estar acompanhado de qualidade educacional

Considero importante reconhecer que políticas de apoio financeiro podem contribuir para reduzir determinadas barreiras econômicas. Entretanto, esses benefícios não substituem a necessidade de escolas estruturadas, professores valorizados e ensino de qualidade.

Um estudante pode receber incentivo para frequentar as aulas e, ainda assim, enfrentar dificuldades pedagógicas que comprometam sua trajetória escolar.

Por isso, acredito que programas financeiros precisam estar articulados a estratégias de acompanhamento da aprendizagem e de prevenção da reprovação e do abandono.

Nesse sentido, o Ministério da Educação instituiu, pela Portaria MEC nº 496/2025, a Estratégia Pedagógica Rumo Certo, voltada à prevenção e à mitigação da reprovação, do abandono e da evasão no ensino médio, no âmbito do Pé-de-Meia.

Na minha avaliação, o enfrentamento da evasão exige justamente essa combinação entre apoio social e medidas educacionais.

Dificuldades de aprendizagem também podem afastar os jovens da escola

Nem todas as causas da evasão estão diretamente relacionadas às condições econômicas. Dificuldades persistentes de aprendizagem também podem interferir na participação e na permanência dos estudantes.

Quando um adolescente apresenta defasagens importantes em leitura, interpretação textual ou matemática, acompanhar os conteúdos de etapas posteriores pode se tornar progressivamente mais difícil.

A repetição de experiências de fracasso escolar pode contribuir para o desânimo e para o enfraquecimento do vínculo com a instituição. Entretanto, considero necessário evitar generalizações, pois dificuldades acadêmicas não produzem os mesmos efeitos em todos os estudantes.

Recuperação da aprendizagem precisa ser uma política permanente

Acredito que as escolas precisam contar com estratégias de avaliação diagnóstica, recuperação contínua e acompanhamento pedagógico, especialmente para estudantes que apresentam defasagens acumuladas.

Essas medidas devem fazer parte do planejamento das redes de ensino, respeitando as necessidades de cada etapa da educação básica.

Também considero importante oferecer formação continuada e condições adequadas de trabalho aos professores responsáveis pelo acompanhamento dessas situações.

Não podemos exigir resultados educacionais consistentes sem reconhecer que turmas heterogêneas demandam planejamento, recursos pedagógicos e apoio institucional.

Na minha visão, enfrentar a evasão significa também oferecer aos estudantes condições concretas para aprender, evitando que a escola seja percebida como um ambiente no qual suas dificuldades se acumulam sem acompanhamento.

Acolhimento, convivência e saúde mental fazem parte da permanência escolar

As relações construídas dentro das escolas também merecem atenção nas políticas de prevenção à evasão.

Situações de discriminação, bullying, conflitos recorrentes e dificuldades de convivência podem contribuir para o afastamento de determinados estudantes.

Entretanto, considero importante compreender que problemas relacionados à saúde mental ou à convivência escolar exigem abordagens responsáveis e não devem ser utilizados para explicar indiscriminadamente todos os casos de abandono.

A Lei nº 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, estabelecendo medidas de conscientização, prevenção e enfrentamento ao bullying.

Na minha avaliação, a construção de ambientes seguros e respeitosos precisa fazer parte das políticas de permanência estudantil.

O estudante precisa encontrar apoio para enfrentar dificuldades

A escola deve oferecer canais adequados de comunicação e procedimentos para identificar situações que comprometam o bem-estar dos alunos.

Isso não significa transferir aos professores a responsabilidade por atendimentos que dependem de profissionais especializados. Situações relacionadas à saúde mental, à violência ou à proteção de crianças e adolescentes podem exigir encaminhamento aos serviços competentes.

Acredito que a atuação integrada entre escola, família e rede de proteção pode contribuir para responder de maneira mais adequada às necessidades dos estudantes.

A permanência escolar deve estar associada ao direito de aprender em um ambiente que respeite a dignidade e a individualidade de cada pessoa.

Esporte, cultura e atividades complementares podem fortalecer o vínculo com a escola

A prevenção da evasão escolar também pode envolver iniciativas que ampliem as experiências educacionais e fortaleçam o sentimento de pertencimento dos estudantes.

Projetos culturais, atividades científicas e práticas esportivas podem oferecer oportunidades de participação e desenvolvimento, especialmente quando estão relacionados aos interesses dos jovens.

Como professor de Educação Física, considero que o esporte possui possibilidades importantes nesse contexto. Modalidades coletivas podem proporcionar experiências de convivência, cooperação, responsabilidade e participação social.

Entretanto, acredito que essas atividades precisam ser planejadas pedagogicamente. O esporte não possui capacidade automática de impedir a evasão ou resolver problemas socioeconômicos.

O voleibol como espaço complementar de formação

Vivencio a relação entre esporte e desenvolvimento educacional também por meio da Associação de Voleibol Sul Catarinense (AVOSUL), entidade da qual sou fundador e presidente.

A experiência com atividades esportivas reforça minha compreensão de que projetos dessa natureza podem ampliar oportunidades de convivência, participação e aprendizagem para crianças e adolescentes.

Na minha visão, o acesso a experiências esportivas pode contribuir para o fortalecimento de vínculos sociais, especialmente quando os participantes encontram um ambiente organizado, inclusivo e acompanhado por profissionais qualificados.

Entretanto, considero importante reconhecer que projetos esportivos representam ações complementares. Seu potencial precisa ser articulado às políticas educacionais, sem substituir o acompanhamento escolar ou os serviços públicos responsáveis por outras necessidades dos estudantes.

Transporte, alimentação e proteção social também ajudam a garantir a frequência

As condições necessárias para frequentar a escola ultrapassam o ambiente da sala de aula. Transporte, alimentação, acessibilidade e disponibilidade de serviços públicos podem influenciar diretamente a permanência educacional.

Em comunidades rurais ou localidades mais afastadas, por exemplo, dificuldades relacionadas ao deslocamento podem representar obstáculos importantes.

Da mesma forma, situações de insegurança alimentar e vulnerabilidade econômica exigem atenção das políticas públicas.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), coordenado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, possui entre seus objetivos contribuir para o desenvolvimento, a aprendizagem e a formação de hábitos alimentares saudáveis dos estudantes.

Na minha avaliação, esses serviços demonstram que a garantia do direito à educação também depende de condições sociais que favoreçam a frequência e a aprendizagem.

Os municípios precisam conhecer as necessidades de seus territórios

Considero importante que o planejamento das políticas de permanência utilize informações sobre frequência escolar, transporte, características territoriais e condições de atendimento.

Em municípios como Sombrio, no Sul de Santa Catarina, esse diagnóstico pode contribuir para compreender as necessidades específicas das comunidades, sem presumir que todas enfrentem os mesmos problemas.

A articulação entre as redes municipal e estadual de educação também merece atenção, respeitando as responsabilidades de cada esfera administrativa.

Acredito que conhecer a realidade dos estudantes representa uma condição importante para organizar recursos e desenvolver medidas adequadas.

Manter os jovens estudando exige compromisso permanente com a educação

A evasão escolar não deve ser compreendida apenas como a ausência de um estudante na sala de aula. Trata-se de um problema que pode comprometer oportunidades de aprendizagem, qualificação profissional e participação social.

Acredito que seu enfrentamento exige políticas públicas capazes de atuar em diferentes momentos da trajetória educacional: antes do afastamento, durante a identificação das dificuldades e depois do retorno à escola.

Isso envolve acompanhar a frequência, fortalecer a aprendizagem, valorizar os professores e articular medidas de assistência social, saúde, transporte e proteção quando necessário.

Também considero fundamental reconhecer que as iniciativas precisam ser avaliadas continuamente. Programas que apresentam resultados positivos devem contar com mecanismos de acompanhamento, enquanto ações que não alcançam seus objetivos precisam ser aperfeiçoadas.

Os dados divulgados pelo IBGE e pelo UNICEF demonstram que a exclusão escolar permanece como um desafio relevante no Brasil. Entretanto, também existem experiências e políticas que podem contribuir para enfrentá-la.

Na minha visão, a melhoria dos indicadores de permanência não pode ser confundida exclusivamente com o aumento de matrículas. O objetivo precisa ser garantir que os estudantes frequentem a escola, desenvolvam conhecimentos e tenham oportunidades de concluir sua formação.

Como professor, compreendo que a aprendizagem depende de diferentes condições e que os estudantes possuem trajetórias marcadas por realidades sociais distintas.

Por isso, considero importante construir políticas que reconheçam essas diferenças, evitando responsabilizar individualmente aqueles que enfrentam maiores dificuldades.

Manter os jovens estudando exige transformar o direito à educação em condições concretas de acesso, permanência e aprendizagem. Esse compromisso envolve ações pedagógicas, investimentos adequados e participação de diferentes setores da sociedade.

Acredito que a educação pública precisa oferecer oportunidades para que crianças e adolescentes desenvolvam suas capacidades e construam perspectivas para o futuro.

Quando um estudante interrompe sua trajetória educacional, é necessário compreender quais obstáculos contribuíram para essa situação e quais medidas podem favorecer seu retorno.

Entretanto, considero ainda mais importante desenvolver políticas capazes de identificar e enfrentar essas dificuldades antes que o afastamento aconteça.

É nesse compromisso com a prevenção, com a valorização dos profissionais e com a continuidade das políticas públicas que vejo um dos caminhos para reduzir a evasão escolar e fortalecer o direito à educação no Brasil.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoas-sentado-borrado-manchado-12716111/

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